11.7.09
O osso tão roído, eu digo, sem literatura: eu venho sem novos poemas. Porque o poema sempre-velho, carcomido, escavado. O nosso poema telúrico, torrão desfeito na boca grande do tempo. Acho mesmo muita graça em dizer assim co'a boca cheia 'o nosso poema telúrico'. Os dentes todos barro - como se por haver pedra - a boca toda lodo. Mas não tem problema que seja engraçado porque esse riso feito cinza não aceita meia-água de ironia - isto sem literaturas e com a graça de mil demônios: o meu riso feito cinza não aceita meia-aguinha de ironia. Para responder brancamente aos alegres convivas, estes cães tão não-centauros.
Quando eu digo para a alegria do conviva que meu tempo é pouco e ele não nunca não sabe que não é questão de morte prematura nem de nenhuma outra reviravolta estimulante do roteiro a coisa toda beira inchaço na língua e eu vou ter de explicar. Com mil diabos. Como explicar que é questão de lua no copo? Questão de proliferação de becos nas pontas dos dedos de imagens repetidas de ecos de epístolas de anis entre uma sílaba e um acento numa palavra violácea uma parte branca numa palavra aquela palavra perdida no inchaço no eco
quando uma coisa soa como mil rebentos marcando por sobre a pele garatujas de uma paisagem insuspeitada e pedregosa?
Tento explicar envio cartas quando me mandam as outras cartas.
Descanso entre as palmas das mãos a canseira do rosto, o suor junta os cílios, as pálpebras que noite lambeu. Se o meu cabelo tem cor de tiziu tem cor de anu - se eu cortar na nova será que ele avoa e me dissolve?
21.3.09
SE A LUA PERDEU AS PÁLPEBRAS
-é inútil subir nos telhados
e chamar pelas suas crianças;
de dentro do balão
elas sobrevoam o deserto como a uma ampulheta
com a palha do nome que lhes foi dado, elas tramaram um cesto. Com os cordões dos sapatos, uns metros de corda. Nos livros que lhes deram, elas soletraram A-S-T-R-O-N-A-U-T-A e, da lua distraída pelo eclipse, descascaram os olhos – o couro, curtido, esticado, pintado de verde, inflou-se, a alegria é furta-cor de varejeiras
suas crianças deixaram sobre a mesa o lastro
- verbo cor de prata -
e enlutadas formigas
e a calha entupida de estrelas
[apenas para distraí-los
de que agora é inútil subir nos telhados]
.
14.3.09
para que os lilases convivas se esqueçam
O ANJO SOB A ÁGUA
primavera espúria,
flor-do-vilipêndio:
esporos, abelhas, veludo, brita e desespêro;
[mas um desespero delicado
de ir-se desfolhando em silêncios sob a pele,
um silêncio de pássaro ido sob a pele]
a primavera toca a polpa escura do oceano? encosta sua língua de ânsia, seus humores todos roxos como dentes e assim faz poeira da polpa escura do oceano? é quieta no habismo, sem ruído de penas de pétalas caídas, é quieta quando o habismo se derrama líquido?
[como poderiam ser senão roxos os dentes da primavera? seriam verdes? ora, a primavera jamais se abnega ao espírito caracol de musgos
antes rebenta o roxo rim das lilases
para a desolação dos edifícios
e o germínio da solidão dos portos]
lambe primavera
a fenda da flor que espia o tempo à espera da tua saliva
lambe primavera
o oco do casulo que medita o vôo-margem : a tua saliva
lambe as trincheiras primavera
afunda-lhes o rasgo
[a terra quer rir mais largamente face a tua saliva]
lambe as trincheiras como quem lambe feridas da carne
[as ansiosas feridas da carne – a tua saliva]
lambe os olhos afogados primavera
lambe as asas cancerosas
lambe primavera que o que quer morrer à tua saliva oferece a outra face
.
24.2.09
para que os vivazes convivas não se esqueçam
"Esta noite sonhei - não é literatura - esta noite sonhei que não estava a sonhar. E afirmo que os pesadelos, mesmo para os mais assombrados de nós, apenas são ausências de pesadelo. A girar no vazio, o nosso espírito não poderia fazer-se à ideia de nunca mais girar. E na família dos nossos pensamentos, dos nossos amores, dos nossos ódios, é perpétua a história daquele homem que comia os filhos numa época de fome, para lhes preservar um pai" rené crevel
o que se inflama pelo ódio-pavor de odes requentadas e demais sobras opulentasoh eu amo
o olho desse desavisado passante
espelho em estilhaço,
-discreto espirro de mim-
é alguma música diluída na noite
a diluir o escuro entre asas estúpidas
estúpidas pétalas estúpidos anúncios doce-estúpida premência essa urgente morte que me inflama
com graça e horror
e portanto
oh eu amo
o imperativo de atentar contra o frágil acordo
tessitura entre desejo e cordialidade
ah a piedade! PIEDADE!? Piedoso é o dolorido de meu calcanhar nu de divindade
que dói solitário de poeira e rachadura por saber que tudo que pode se resume burramente num
oh eu amo
que eu clamo eu clamo a boca transbordando doenças miseráveis pus ressequido dentes carcomidos de mordidas nervosamente infantis que me redimirão para além desse lirismo? floreio? redundância? de insistir
na cuidadosa rispidez delicada rispidez do alfinete
OH EU AMO
o doce alfinete pendendo do peito estilhaçado de René Crevel
que continua a berrar discretamente o peso do recado preso pelo alfinete
ENOJADO
morra com placidez tudo de frágil
as ruínas com passados de pássaros esquecidos dentro
graça e horror
30.12.08
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No entanto, cantai, palavras
quem vos disse que chorásseis
vós também?
DA FEBRE
tua escura boca
esta vinha de ferros
mastigou-me
até a ferrugem dos brônquios
nudez
até o estupor
[inflamada a
difícil respiração]
tua boca este
jardim espúrio
de heras florescidas
ao contrário
teu airoso pêlo
teus intempestivos cascos
me infestam a idéia
do poema
então reflito
a circunspecta demarcação
destas cicatrizes
só - porque noite
PLENILÚNIO
hordas de fonemas
para transplantar
o veneno-enigma,
rizoma do sonho
legiões de sortílégios
-epígrafes em revoada-
para junto a seio
[das virtudes teologais,
a terceira]
para junto ao seio
assassinar
tua ferruginosa boca
[seja a poesia um lento mas contínuo aprendizado no assassínio]
quantos matizes
senão todos
dista tua língua
da minha?
-junto ao seio,
da seta, o veneno
CARTA
porque,
convivas [ainda à mesa, e tão fartos!]
estas literaturas:
assunto de cães
já os verbos-dardos
de desvelo e fúria
disparados
-cada seta estica
um fio de vida - :
assunto de centauros
por ser noite:
deixar sobre a mesa
meu baralho
guizos de tornozelo
anéis
jasmins para astarte
-ungir, junto ao seio,
a seta -
.
13.12.08
de quando era outro blog
um cravo desesperado
pende com força do chapéu
que em seca fúria de palha
pende sobre os cabelos
que pendem em feixes por detrás do aconchego das orelhas
que por sua vez vão dependuradas
entre queixo e nuca
[um tresmalhado de desvelo
uma guarnecida de miúdas pontiagudezas]
que seguram o oco de um tubo
onde se enfia um punhado de terra seca
DA TERRA SECA
da terra seca
na goela lama
água esmiucenta pelas narinas
até coalhar o céu da boca
nebulosas até arvorecer pelos olhos
MISTURAR O SER DOS OLHOS
misturar o ser dos olhos
até algum ponto de árvore em que passarinho pouse
PARA TER OLHOS
para ter olhos
[pétalas da morte da noite que dá luz]
e cílios em flor
TÃO VIOLENTAMENTE TERNOS
tão violentamente ternos
com seus espinhos:
DESESPERADAMENTE CRAVO
...
à valsa leve das entranhas,
um meio drama aguado
feche os olhos
[como se já não estivessem]
eu vou acender a luz
[como se fechados os olhos impedissem ]
porque eu quero que você morra, como uma flor
[como se não estivesse trancada por dentro, a porta ]
você flor eu quero por morrer
[como se não fosse da porta trancar-se por dentro]
aceite a dança, aceite, eu conduzo com doçura esse assassinato, sim?
[como se a natureza do assassínio por si não fosse a de um dente dançarino]
entre inverno e primavera, um tanka
o breu aninhado
com a cabeça sob a asa
vergando o galho:
estalido de graveto
inda em flor a cicutária
.