10.11.09
para a camila e para quantos mais vivazes convivas ora pois
um brinquedo alegres convivas brinquemos
o ipê despido
dos brancos - sorrindo ri
em
recos de cigarras
cada eco
o
sol racha:
de anu preto e ôcas cascas
o ipê vestido
.
1.10.09
29.9.09
11.7.09
O osso tão roído, eu digo, sem literatura: eu venho sem novos poemas. Porque o poema sempre-velho, carcomido, escavado. O nosso poema telúrico, torrão desfeito na boca grande do tempo. Acho mesmo muita graça em dizer assim co'a boca cheia 'o nosso poema telúrico'. Os dentes todos barro - como se por haver pedra - a boca toda lodo. Mas não tem problema que seja engraçado porque esse riso feito cinza não aceita meia-água de ironia - isto sem literaturas e com a graça de mil demônios: o meu riso feito cinza não aceita meia-aguinha de ironia. Para responder brancamente aos alegres convivas, estes cães tão não-centauros.
Quando eu digo para a alegria do conviva que meu tempo é pouco e ele não nunca não sabe que não é questão de morte prematura nem de nenhuma outra reviravolta estimulante do roteiro a coisa toda beira inchaço na língua e eu vou ter de explicar. Com mil diabos. Como explicar que é questão de lua no copo? Questão de proliferação de becos nas pontas dos dedos de imagens repetidas de ecos de epístolas de anis entre uma sílaba e um acento numa palavra violácea uma parte branca numa palavra aquela palavra perdida no inchaço no eco
quando uma coisa soa como mil rebentos marcando por sobre a pele garatujas de uma paisagem insuspeitada e pedregosa?
Tento explicar envio cartas quando me mandam as outras cartas.
Descanso entre as palmas das mãos a canseira do rosto, o suor junta os cílios, as pálpebras que noite lambeu. Se o meu cabelo tem cor de tiziu tem cor de anu - se eu cortar na nova será que ele avoa e me dissolve?
21.3.09
SE A LUA PERDEU AS PÁLPEBRAS
-é inútil subir nos telhados
e chamar pelas suas crianças;
de dentro do balão
elas sobrevoam o deserto como a uma ampulheta
com a palha do nome que lhes foi dado, elas tramaram um cesto. Com os cordões dos sapatos, uns metros de corda. Nos livros que lhes deram, elas soletraram A-S-T-R-O-N-A-U-T-A e, da lua distraída pelo eclipse, descascaram os olhos – o couro, curtido, esticado, pintado de verde, inflou-se, a alegria é furta-cor de varejeiras
suas crianças deixaram sobre a mesa o lastro
- verbo cor de prata -
e enlutadas formigas
e a calha entupida de estrelas
[apenas para distraí-los
de que agora é inútil subir nos telhados]
.
14.3.09
para que os lilases convivas se esqueçam
O ANJO SOB A ÁGUA
primavera espúria,
flor-do-vilipêndio:
esporos, abelhas, veludo, brita e desespêro;
[mas um desespero delicado
de ir-se desfolhando em silêncios sob a pele,
um silêncio de pássaro ido sob a pele]
a primavera toca a polpa escura do oceano? encosta sua língua de ânsia, seus humores todos roxos como dentes e assim faz poeira da polpa escura do oceano? é quieta no habismo, sem ruído de penas de pétalas caídas, é quieta quando o habismo se derrama líquido?
[como poderiam ser senão roxos os dentes da primavera? seriam verdes? ora, a primavera jamais se abnega ao espírito caracol de musgos
antes rebenta o roxo rim das lilases
para a desolação dos edifícios
e o germínio da solidão dos portos]
lambe primavera
a fenda da flor que espia o tempo à espera da tua saliva
lambe primavera
o oco do casulo que medita o vôo-margem : a tua saliva
lambe as trincheiras primavera
afunda-lhes o rasgo
[a terra quer rir mais largamente face a tua saliva]
lambe as trincheiras como quem lambe feridas da carne
[as ansiosas feridas da carne – a tua saliva]
lambe os olhos afogados primavera
lambe as asas cancerosas
lambe primavera que o que quer morrer à tua saliva oferece a outra face
.