10.11.09

um brinquedo alegres convivas brinquemos

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o ipê despido
                 dos brancos - sorrindo ri
                                                     em


        recos de cigarras




        cada eco 
                    o
                   sol racha:
              de anu preto e ôcas cascas




                                    o ipê vestido







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1.10.09

À eles, a velocidade da luz.
Eu busco a velocidade da treva.
pLeminski






Ao combate?
Ah, já vi algum sangue,
pouco sangue mas basta;
o pavor das trincheiras me povoa as pálpebras
gangrena nas
fossas nasais que cavo
sempre cavei
[trincheira cogênita]
Portanto é certo: nunca mais respirar normalmente
o metal dessa brisa de guerra
tremor entre as sílabas dos estandartes
Eu me rendo. Prefiro a água morna da trégua
Numa bacia de banho
Numa panela de caldo
Numa canequinha lascada
[doenças, demencinhas íntimas e mínimas, minhas velhas, estou entregue]








Dormir












Onde será que chega o sonho depois do empenho de seicentos mil anos-treva?

29.9.09

http://www.erratica.com.br/opus/84/index.html

11.7.09

outro dia era de tarde a mãe procurava na xícara de chá pássaros e reflexos desde ali a árvore. A tisana [a tisana é um chá só cheiro - de água quente em folha fresca] a tisana de alfazema a mãe bebia. Mais à noite o incêndio - mangueira em flor, plenilúnio. Eu bebo chá preto porque na água escura a gente vê a lua inteira. A mãe bebe tisana porque verde desmaiado feito o olho dela e na água clara a lua dissolvida na palma da mão. Cá entre cães, isto é sem literaturas.
O osso tão roído, eu digo, sem literatura: eu venho sem novos poemas. Porque o poema sempre-velho, carcomido, escavado. O nosso poema telúrico, torrão desfeito na boca grande do tempo. Acho mesmo muita graça em dizer assim co'a boca cheia 'o nosso poema telúrico'. Os dentes todos barro - como se por haver pedra - a boca toda lodo. Mas não tem problema que seja engraçado porque esse riso feito cinza não aceita meia-água de ironia - isto sem literaturas e com a graça de mil demônios: o meu riso feito cinza não aceita meia-aguinha de ironia. Para responder brancamente aos alegres convivas, estes cães tão não-centauros.
Quando eu digo para a alegria do conviva que meu tempo é pouco e ele não nunca não sabe que não é questão de morte prematura nem de nenhuma outra reviravolta estimulante do roteiro a coisa toda beira inchaço na língua e eu vou ter de explicar. Com mil diabos. Como explicar que é questão de lua no copo? Questão de proliferação de becos nas pontas dos dedos de imagens repetidas de ecos de epístolas de anis entre uma sílaba e um acento numa palavra violácea uma parte branca numa palavra aquela palavra perdida no inchaço no eco
quando uma coisa soa como mil rebentos marcando por sobre a pele garatujas de uma paisagem insuspeitada e pedregosa?
Tento explicar envio cartas quando me mandam as outras cartas.
Descanso entre as palmas das mãos a canseira do rosto, o suor junta os cílios, as pálpebras que noite lambeu. Se o meu cabelo tem cor de tiziu tem cor de anu - se eu cortar na nova será que ele avoa e me dissolve?

21.3.09

SE A LUA PERDEU AS PÁLPEBRAS



-é inútil subir nos telhados

e chamar pelas suas crianças;

de dentro do balão

elas sobrevoam o deserto como a uma ampulheta


com a palha do nome que lhes foi dado, elas tramaram um cesto. Com os cordões dos sapatos, uns metros de corda. Nos livros que lhes deram, elas soletraram A-S-T-R-O-N-A-U-T-A e, da lua distraída pelo eclipse, descascaram os olhos – o couro, curtido, esticado, pintado de verde, inflou-se, a alegria é furta-cor de varejeiras


suas crianças deixaram sobre a mesa o lastro

- verbo cor de prata -

e enlutadas formigas

e a calha entupida de estrelas

[apenas para distraí-los

de que agora é inútil subir nos telhados]



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14.3.09

para que os lilases convivas se esqueçam

O ANJO SOB A ÁGUA



primavera espúria,

flor-do-vilipêndio:

esporos, abelhas, veludo, brita e desespêro;


[mas um desespero delicado

de ir-se desfolhando em silêncios sob a pele,

um silêncio de pássaro ido sob a pele]


a primavera toca a polpa escura do oceano? encosta sua língua de ânsia, seus humores todos roxos como dentes e assim faz poeira da polpa escura do oceano? é quieta no habismo, sem ruído de penas de pétalas caídas, é quieta quando o habismo se derrama líquido?


[como poderiam ser senão roxos os dentes da primavera? seriam verdes? ora, a primavera jamais se abnega ao espírito caracol de musgos

antes rebenta o roxo rim das lilases

para a desolação dos edifícios

e o germínio da solidão dos portos]



lambe primavera

a fenda da flor que espia o tempo à espera da tua saliva

lambe primavera

o oco do casulo que medita oo-margem : a tua saliva

lambe as trincheiras primavera

afunda-lhes o rasgo

[a terra quer rir mais largamente face a tua saliva]

lambe as trincheiras como quem lambe feridas da carne

[as ansiosas feridas da carne – a tua saliva]

lambe os olhos afogados primavera

lambe as asas cancerosas

lambe primavera que o que quer morrer à tua saliva oferece a outra face



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24.2.09

para que os vivazes convivas não se esqueçam

"Esta noite sonhei - não é literatura - esta noite sonhei que não estava a sonhar. E afirmo que os pesadelos, mesmo para os mais assombrados de nós, apenas são ausências de pesadelo. A girar no vazio, o nosso espírito não poderia fazer-se à ideia de nunca mais girar. E na família dos nossos pensamentos, dos nossos amores, dos nossos ódios, é perpétua a história daquele homem que comia os filhos numa época de fome, para lhes preservar um pai" rené crevel




o que se inflama pelo ódio-pavor de odes requentadas e demais sobras opulentas

oh eu amo

o olho desse desavisado passante

espelho em estilhaço,

-discreto espirro de mim-

é alguma música diluída na noite

a diluir o escuro entre asas estúpidas

estúpidas pétalas estúpidos anúncios doce-estúpida premência essa urgente morte que me inflama

com graça e horror

e portanto

oh eu amo

o imperativo de atentar contra o frágil acordo

tessitura entre desejo e cordialidade

ah a piedade! PIEDADE!? Piedoso é o dolorido de meu calcanhar nu de divindade

que dói solitário de poeira e rachadura por saber que tudo que pode se resume burramente num

oh eu amo

que eu clamo eu clamo a boca transbordando doenças miseráveis pus ressequido dentes carcomidos de mordidas nervosamente infantis que me redimirão para além desse lirismo? floreio? redundância? de insistir

na cuidadosa rispidez delicada rispidez do alfinete

OH EU AMO

o doce alfinete pendendo do peito estilhaçado de René Crevel

que continua a berrar discretamente o peso do recado preso pelo alfinete

ENOJADO


morra com placidez tudo de frágil

as ruínas com passados de pássaros esquecidos dentro
resistem a destilar
[com violência e ternura]

graça e horror