e falar, falar da língua, bicho vivo que a boca habita e da mesma maneira: o resíduo, a coisa escrita transformada e repetida de hábito e invenção. E da mesma maneira: a fronte curvada sobre a folha e o seu ser-em-branco: vivamente habitado de tanta morte - PAPEL ACEITA TUDO e é do resíduo habitar os cantos, e do ar tanto erguer quanto dissolver a voz. o quê de mais próprio aos cantos que a poeira, que a gente sem nem saber vai arando o semear sozinho pra colheita comum, a chuva prece de tudo.
o que vou arando no comum de cada tarde será vespas será entulhos? a chuva prece de tudo
21.2.10
15.12.09
10.11.09
para a camila e para quantos mais vivazes convivas ora pois
senhor se fosse eu peixe-lua
eu era feixe de fibra por fiar
se fosse, senhor, em vez deste aboio eu prateava de corpo todo senhor eu boiava eu era luzeiro
- nem fosse por todo sal senhor -
ia alinhavando sem arremate
sem arremate alto e mar : eu era o fundo do espelho [se o ar é vidro da lua a se mirar]
peixe-lua era eu a face dágua
fossem as plantas do senhor a me pisar
um brinquedo alegres convivas brinquemos
.
o ipê despido
dos brancos - sorrindo ri
em
recos de cigarras
cada eco
o
sol racha:
de anu preto e ôcas cascas
o ipê vestido
.
o ipê despido
dos brancos - sorrindo ri
em
recos de cigarras
cada eco
o
sol racha:
de anu preto e ôcas cascas
o ipê vestido
.
1.10.09
À eles, a velocidade da luz.
Eu busco a velocidade da treva.
pLeminski
Ao combate?
Ah, já vi algum sangue,
pouco sangue mas basta;
o pavor das trincheiras me povoa as pálpebras
gangrena nas
fossas nasais que cavo
sempre cavei
[trincheira cogênita]
Portanto é certo: nunca mais respirar normalmente
o metal dessa brisa de guerra
tremor entre as sílabas dos estandartes
Eu me rendo. Prefiro a água morna da trégua
Numa bacia de banho
Numa panela de caldo
Numa canequinha lascada
[doenças, demencinhas íntimas e mínimas, minhas velhas, estou entregue]
Dormir
Onde será que chega o sonho depois do empenho de seicentos mil anos-treva?
29.9.09
11.7.09
outro dia era de tarde a mãe procurava na xícara de chá pássaros e reflexos desde ali a árvore. A tisana [a tisana é um chá só cheiro - de água quente em folha fresca] a tisana de alfazema a mãe bebia. Mais à noite o incêndio - mangueira em flor, plenilúnio. Eu bebo chá preto porque na água escura a gente vê a lua inteira. A mãe bebe tisana porque verde desmaiado feito o olho dela e na água clara a lua dissolvida na palma da mão. Cá entre cães, isto é sem literaturas.
O osso tão roído, eu digo, sem literatura: eu venho sem novos poemas. Porque o poema sempre-velho, carcomido, escavado. O nosso poema telúrico, torrão desfeito na boca grande do tempo. Acho mesmo muita graça em dizer assim co'a boca cheia 'o nosso poema telúrico'. Os dentes todos barro - como se por haver pedra - a boca toda lodo. Mas não tem problema que seja engraçado porque esse riso feito cinza não aceita meia-água de ironia - isto sem literaturas e com a graça de mil demônios: o meu riso feito cinza não aceita meia-aguinha de ironia. Para responder brancamente aos alegres convivas, estes cães tão não-centauros.
Quando eu digo para a alegria do conviva que meu tempo é pouco e ele não nunca não sabe que não é questão de morte prematura nem de nenhuma outra reviravolta estimulante do roteiro a coisa toda beira inchaço na língua e eu vou ter de explicar. Com mil diabos. Como explicar que é questão de lua no copo? Questão de proliferação de becos nas pontas dos dedos de imagens repetidas de ecos de epístolas de anis entre uma sílaba e um acento numa palavra violácea uma parte branca numa palavra aquela palavra perdida no inchaço no eco
quando uma coisa soa como mil rebentos marcando por sobre a pele garatujas de uma paisagem insuspeitada e pedregosa?
Tento explicar envio cartas quando me mandam as outras cartas.
Descanso entre as palmas das mãos a canseira do rosto, o suor junta os cílios, as pálpebras que noite lambeu. Se o meu cabelo tem cor de tiziu tem cor de anu - se eu cortar na nova será que ele avoa e me dissolve?
O osso tão roído, eu digo, sem literatura: eu venho sem novos poemas. Porque o poema sempre-velho, carcomido, escavado. O nosso poema telúrico, torrão desfeito na boca grande do tempo. Acho mesmo muita graça em dizer assim co'a boca cheia 'o nosso poema telúrico'. Os dentes todos barro - como se por haver pedra - a boca toda lodo. Mas não tem problema que seja engraçado porque esse riso feito cinza não aceita meia-água de ironia - isto sem literaturas e com a graça de mil demônios: o meu riso feito cinza não aceita meia-aguinha de ironia. Para responder brancamente aos alegres convivas, estes cães tão não-centauros.
Quando eu digo para a alegria do conviva que meu tempo é pouco e ele não nunca não sabe que não é questão de morte prematura nem de nenhuma outra reviravolta estimulante do roteiro a coisa toda beira inchaço na língua e eu vou ter de explicar. Com mil diabos. Como explicar que é questão de lua no copo? Questão de proliferação de becos nas pontas dos dedos de imagens repetidas de ecos de epístolas de anis entre uma sílaba e um acento numa palavra violácea uma parte branca numa palavra aquela palavra perdida no inchaço no eco
quando uma coisa soa como mil rebentos marcando por sobre a pele garatujas de uma paisagem insuspeitada e pedregosa?
Tento explicar envio cartas quando me mandam as outras cartas.
Descanso entre as palmas das mãos a canseira do rosto, o suor junta os cílios, as pálpebras que noite lambeu. Se o meu cabelo tem cor de tiziu tem cor de anu - se eu cortar na nova será que ele avoa e me dissolve?
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